Suzano e Guarulhos lideram impacto regional; municípios somam US$ 402,7 milhões em exportações potencialmente atingidas pelas novas tarifas dos Estados Unidos
O novo tarifaço imposto pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, coloca oito cidades que integram o CONDEMAT+ entre os municípios brasileiros mais expostos às sobretaxas.
Suzano, Guarulhos, Arujá, Mogi das Cruzes, Guararema, Ferraz de Vasconcelos, Itaquaquecetuba e Poá somam US$ 402,7 milhões em exportações potencialmente atingidas.
O levantamento considera as exportações realizadas em 2024 nos dez grupos de produtos mais vendidos pelo Brasil e alcançados pelas novas tarifas de 25% e 12,5%. Quando as duas cobranças incidem sobre a mesma mercadoria, a sobretaxa chega a 37,5%.
Os valores não representam prejuízos já confirmados nem o total que será pago em impostos. Eles mostram o volume de exportações de 2024 enquadrado nos grupos de produtos afetados pelas novas medidas norte-americanas.
Veja tabela das cidades do Alto Tietê:

Suzano e Guarulhos concentram 91,6% do valor regional
Suzano é a cidade do Alto Tietê mais exposta e aparece em sexto lugar no ranking nacional, com US$ 191,9 milhões em exportações potencialmente atingidas. O município fica atrás apenas de Piracicaba, São Paulo, Joinville, Serra e Petrópolis.
Guarulhos aparece logo depois, com US$ 176,8 milhões, ocupando a nona posição no país. Juntas, Suzano e Guarulhos concentram 91,6% dos US$ 402,7 milhões identificados nas oito cidades da região.
A inclusão de Guarulhos segue o recorte territorial adotado pelo CONDEMAT+, que considera o município integrante da região. Algumas classificações tradicionais apresentam o Alto Tietê com dez cidades, mas o consórcio trabalha com uma composição ampliada.
Por que Suzano aparece entre as primeiras do país
A posição de Suzano está relacionada à força de seu parque industrial e à presença de exportações ligadas aos setores de papel, máquinas, equipamentos e outros produtos manufaturados.
É necessário diferenciar papel e celulose. A celulose está entre os produtos excluídos da sobretaxa de 25%, mas diferentes tipos de papel não receberam o mesmo tratamento.
Por isso, o valor atribuído ao município não pode ser relacionado automaticamente a uma única empresa ou exclusivamente à exportação de celulose.

Analistas do mercado financeiro avaliam que a exposição das grandes companhias de celulose pode ser limitada porque o produto foi incluído nas exceções e essas empresas vendem para diferentes países. O risco tende a ser maior para fabricantes de papel e indústrias menores que dependem mais dos compradores norte-americanos.
Guarulhos tem a segunda maior exposição
A presença de Guarulhos entre os dez municípios mais afetados do Brasil está relacionada ao tamanho e à diversidade de seu parque industrial.
A cidade concentra empresas de máquinas e equipamentos, materiais elétricos, produtos químicos, plásticos, componentes automotivos, produtos metálicos e outros segmentos da indústria de transformação.
Guarulhos também tem participação estratégica na cadeia logística e no comércio exterior, impulsionada pela proximidade com as rodovias Presidente Dutra e Ayrton Senna e pelo Aeroporto Internacional de São Paulo.
O impacto efetivo dependerá dos produtos exportados por cada empresa, da classificação tarifária das mercadorias e da participação dos Estados Unidos no faturamento de cada indústria.
Arujá e Mogi também podem sentir os efeitos
Arujá aparece com US$ 16,3 milhões em exportações potencialmente atingidas. O município possui um parque industrial com presença de empresas dos setores de máquinas, equipamentos, materiais elétricos, produtos químicos, plásticos e peças.
Mogi das Cruzes registra US$ 14,7 milhões. A pauta exportadora mogiana inclui tratores, máquinas, aparelhos e materiais elétricos, equipamentos mecânicos, metais e outros produtos industrializados.
Máquinas e equipamentos estão entre os setores mais expostos ao tarifaço. Por esse motivo, algumas indústrias de Arujá e Mogi podem enfrentar pressão para reduzir preços, renegociar contratos ou procurar novos compradores.
O economista Sergio Vale, da consultoria MB Associados, aponta máquinas e equipamentos, madeira e produtos elétricos, como transformadores, entre os principais segmentos atingidos. Na avaliação do especialista, as tarifas também encarecem as mercadorias para os consumidores norte-americanos e reduzem a eficiência da economia dos Estados Unidos.
Para as empresas brasileiras, uma das principais alternativas será ampliar a presença em outros mercados.
Guararema, Ferraz, Itaquá e Poá completam a relação
Guararema aparece com US$ 1,44 milhão em exportações potencialmente atingidas. Ferraz de Vasconcelos registra US$ 694,4 mil, Itaquaquecetuba soma US$ 639,6 mil e Poá aparece com US$ 8,9 mil.
Os valores são menores quando comparados aos de Suzano e Guarulhos, mas isso não significa necessariamente um impacto pequeno.

Uma empresa de menor porte que depende de poucos compradores norte-americanos pode sofrer proporcionalmente mais do que uma grande companhia que vende seus produtos para vários países.
Biritiba Mirim, Salesópolis, Santa Isabel e os demais municípios associados ao CONDEMAT+ não tiveram valores identificados no levantamento analisado.
Como funcionam as novas tarifas
O governo dos Estados Unidos publicou duas medidas com base na Seção 301 de sua legislação comercial.
A primeira estabeleceu uma sobretaxa de 25% sobre determinados produtos brasileiros e entrou em vigor em 22 de julho. A cobrança não alcança mercadorias embarcadas antes dessa data que ingressem em território norte-americano até 29 de julho.
A segunda medida estabeleceu uma tarifa adicional de 12,5% para produtos brasileiros dentro de uma investigação envolvendo 60 parceiros comerciais dos Estados Unidos e as práticas de combate ao trabalho forçado nas cadeias produtivas.
Quando as duas tarifas atingem o mesmo produto, as cobranças são acumuladas e chegam a 37,5%.
A estimativa do governo brasileiro é que aproximadamente 23,1% das exportações do país aos Estados Unidos estejam sujeitas às novas sobretaxas decorrentes das investigações da Seção 301.
A Confederação Nacional da Indústria calcula que a tarifa acumulada poderá alcançar quase 4 mil produtos e cerca de R$ 55 bilhões em exportações brasileiras.
Produtos mais expostos
Entre os grupos mais atingidos estão:
- máquinas e equipamentos;
- materiais e aparelhos elétricos;
- madeira e derivados;
- papel;
- calçados;
- tabaco;
- rochas naturais;
- gorduras de origem vegetal e animal;
- diferentes produtos industrializados.
Celulose, petróleo bruto, gás natural, aeronaves civis e determinados componentes aeroespaciais estão entre as exceções da tarifa de 25%. Alguns combustíveis, carnes, café e suco de laranja também foram preservados de parte das novas cobranças.

A classificação de cada mercadoria é decisiva. Produtos fabricados pela mesma empresa podem receber tratamentos diferentes na alfândega norte-americana.
Tarifa é cobrada nos Estados Unidos, mas afeta a indústria brasileira
A tarifa é recolhida pelo importador quando a mercadoria entra nos Estados Unidos. Entretanto, o custo pode chegar à empresa brasileira de várias maneiras.
O comprador norte-americano pode pedir redução no preço, diminuir as encomendas ou substituir o fornecedor brasileiro por uma indústria localizada em um país submetido a uma tarifa menor.
A empresa brasileira também pode tentar dividir o custo com o importador, repassar parte do aumento ao consumidor ou buscar novos mercados.
Representantes dos setores de máquinas, calçados e outros produtos industriais avaliam que, sem uma solução negociada, empresas poderão perder vendas, reduzir a produção e rever postos de trabalho.
Entre os possíveis reflexos para as cidades do Alto Tietê estão:
- queda nas encomendas dos Estados Unidos;
- redução das margens das empresas exportadoras;
- renegociação ou cancelamento de contratos;
- adiamento de investimentos;
- diminuição da produção;
- risco para empregos industriais;
- impacto sobre transportadoras e fornecedores;
- redirecionamento de produtos para o mercado brasileiro;
- procura por compradores na Ásia, Europa e América Latina.
Tensão comercial também afeta investimentos
Os efeitos podem ultrapassar a venda de mercadorias. Dados do Banco Central mostram que os investimentos dos Estados Unidos em empresas brasileiras caíram 29% em 2025, passando de US$ 11,9 bilhões para US$ 8,4 bilhões.
O economista Claudio Frischtak, da consultoria Inter.B, avalia que as políticas econômicas do governo Trump vêm afetando os investimentos de empresas norte-americanas em países como o Brasil.
O setor de serviços costuma reagir mais rapidamente às tensões externas, enquanto as decisões industriais levam mais tempo para mudar.
Para uma região industrial e logística como o Alto Tietê, a queda da confiança pode pesar sobre novos projetos, ampliações de fábricas e decisões de contratação, mesmo entre empresas que não exportam diretamente.
Impacto nacional pode ser limitado, mas efeito local preocupa
Especialistas diferenciam o impacto sobre a economia brasileira do efeito sobre setores, empresas e cidades específicas.
No conjunto do país, o peso pode ser limitado porque o Brasil vende produtos para diversos mercados. Em municípios com indústrias dependentes dos Estados Unidos, porém, o impacto pode ser maior.
Experiências anteriores mostram que o redirecionamento das exportações ajuda a reduzir prejuízos. China, Índia, Argentina, México e Chile ampliaram a compra de determinados produtos brasileiros durante outros períodos de restrição comercial.
A substituição de compradores, entretanto, não acontece de forma imediata. Ela pode exigir novos contratos, certificações, mudanças no transporte e adaptações dos produtos.
Analistas também avaliam que o impacto sobre grandes empresas exportadoras pode ser reduzido pelas exceções e pela diversificação dos mercados. O risco aumenta para companhias que dependem fortemente dos Estados Unidos e não conseguem redirecionar rapidamente sua produção.
Região precisará acompanhar empresas e empregos
A presença de oito cidades do Alto Tietê no levantamento acende um alerta para governos municipais, entidades empresariais e sindicatos.
O acompanhamento deverá identificar quais empresas estão efetivamente sujeitas às tarifas, quanto da produção segue para os Estados Unidos e quantos empregos estão ligados a essas operações.
Suzano e Guarulhos lideram o valor regional, mas os efeitos podem alcançar fornecedores, prestadores de serviços, transportadoras e trabalhadores de outras cidades.
Os US$ 402,7 milhões não são uma perda confirmada. O número mostra o tamanho das exportações regionais potencialmente expostas e revela quanto a indústria do Alto Tietê está conectada ao mercado norte-americano.
O impacto final dependerá das negociações entre Brasil e Estados Unidos, das decisões tomadas pelas empresas e da capacidade de conquistar novos compradores.



