O avanço do uso de canetas emagrecedoras no Brasil ganhou um novo e preocupante capítulo: o crescimento do contrabando desses medicamentos, principalmente a partir do Paraguai. Vendidos ilegalmente, sem prescrição médica e fora de qualquer controle sanitário, os produtos já são tratados por autoridades como um problema de saúde pública.
Levantamento da Receita Federal aponta que as apreensões dispararam nos últimos anos. Em 2024, foram recolhidas cerca de 2,5 mil unidades. No ano seguinte, o número saltou para 30 mil canetas, avaliadas em mais de R$ 30 milhões. Especialistas estimam, no entanto, que esse volume represente apenas 5% do total que entra ilegalmente no país, o que indica um mercado que pode movimentar até R$ 600 milhões.
As canetas são comercializadas de forma clandestina, tanto em ruas de cidades fronteiriças quanto pela internet e redes sociais. Há registros de vendas feitas sem qualquer exigência de receita médica, com entrega rápida e promessas de emagrecimento fácil. Para driblar a fiscalização, os contrabandistas escondem os produtos em fundos falsos de veículos, estofamentos, bagagens e até dentro de pneus.
Segundo a Receita Federal, além da ilegalidade, o maior risco está na falta de garantia sobre a origem, o transporte e a conservação dos medicamentos. Muitos deles chegam ao Brasil sem refrigeração adequada, o que pode comprometer sua eficácia e segurança.
Os impactos à saúde já começam a aparecer. Um dos casos acompanhados pelas autoridades envolve uma mulher de 42 anos que utilizou uma caneta emagrecedora trazida do Paraguai. Dias depois, ela apresentou fortes dores abdominais e foi diagnosticada com síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune rara que pode causar paralisia. A paciente segue internada em estado grave.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia, não é possível identificar a real causa de reações adversas quando o medicamento é adquirido ilegalmente. “O produto pode estar contaminado, adulterado ou mal conservado. Os efeitos colaterais podem ser severos e, em casos extremos, levar à morte”, alertam especialistas.
A Anvisa reforça que medicamentos sem registro no Brasil não podem ser comercializados. A única exceção é a importação individual, feita pelo próprio paciente, com prescrição médica e exclusivamente para uso pessoal. Qualquer outra forma de venda é considerada crime.
No Paraguai, autoridades sanitárias também emitiram alertas, especialmente sobre substâncias como a tirzepatida, frequentemente encontrada em canetas irregulares. O órgão local afirma que não há garantia de composição, qualidade ou segurança desses produtos.
Além dos riscos à saúde, o contrabando pode gerar consequências criminais. A comercialização de medicamentos falsificados ou adulterados pode configurar crime contra a saúde pública, com penas que chegam a 15 anos de prisão.
Especialistas defendem que o enfrentamento do problema passa por ações integradas nas fronteiras, cooperação entre agências sanitárias dos dois países e, principalmente, conscientização da população.
Apesar de reconhecidas como um avanço no tratamento da obesidade e do diabetes, as canetas emagrecedoras devem ser utilizadas apenas com acompanhamento médico e adquiridas em canais oficiais. Fora disso, o risco pode ser muito maior do que qualquer benefício prometido.



