PF aponta plano de ataque a jornalista e espionagem ilegal em investigação contra dono do Banco Master.
A Polícia Federal revelou novos detalhes da investigação que levou à nova prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Mensagens interceptadas pelos investigadores indicam que ele teria autorizado um plano para agredir o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, após a publicação de reportagens consideradas contrárias aos interesses do empresário.
De acordo com os investigadores, Vorcaro teria orientado que fosse simulado um assalto para agredir o jornalista e “quebrar todos os dentes”, em uma tentativa de intimidação. O plano teria sido discutido em conversas com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado como coordenador de um grupo de vigilância clandestina apelidado de “A Turma”.
A revelação levou o jornal O Globo a divulgar nota de repúdio, classificando a iniciativa como uma tentativa de “calar a voz da imprensa”.
Acesso ilegal a sistemas sigilosos
As investigações também apontam que integrantes do grupo teriam acessado indevidamente sistemas restritos da Polícia Federal (PF), do Ministério Público Federal (MPF) e até de organismos internacionais, como FBI e Interpol.
Segundo a PF, Mourão utilizava credenciais funcionais de terceiros para realizar consultas e extrair dados sigilosos. As informações obtidas eram utilizadas para monitorar autoridades, jornalistas e outras pessoas consideradas adversárias da organização.
Esses dados, conforme a investigação, eram repassados ao núcleo estratégico do grupo, que decidia como agir diante de conteúdos ou informações considerados prejudiciais aos interesses do banco.

Estrutura de vigilância
Os investigadores descrevem que o grupo operava com uma estrutura organizada, com divisão de funções entre os integrantes.
No topo estaria Daniel Vorcaro, apontado como líder da organização. Segundo a Polícia Federal, ele definiria tanto estratégias financeiras quanto ações de monitoramento e intimidação.
O núcleo operacional incluiria:
Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, responsável pela operacionalização financeira do esquema; Luiz Phillipi Mourão, apontado como coordenador da estrutura de vigilância clandestina; Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado que, segundo a investigação, utilizava experiência e contatos para obter informações sigilosas.
Cooptação dentro do Banco Central
A investigação também aponta que servidores ligados à supervisão bancária do Banco Central teriam sido cooptados para colaborar com o grupo.
Entre os citados estão Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, que, segundo a PF, atuariam como consultores informais de Vorcaro. Eles teriam revisado documentos que o próprio banco enviaria ao órgão regulador e antecipado possíveis ações de fiscalização.
Em troca, receberiam pagamentos mensais que podiam chegar a R$ 1 milhão, por meio de contratos simulados de consultoria e empresas de fachada. Por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), os servidores foram afastados das funções e deverão usar tornozeleira eletrônica.
Prisões e nova fase da operação
A nova etapa das investigações integra a terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quarta-feira (4).
A prisão de Vorcaro e de outros investigados foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Na decisão, o magistrado afirmou que a liberdade dos suspeitos poderia colocar em risco a ordem pública, ameaçar vítimas e autoridades e comprometer a coleta de provas.
Também foram presos:
Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro; Luiz Phillipi Mourão, apontado como operador da estrutura de vigilância; Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado.
O ministro também determinou a suspensão das atividades de cinco empresas ligadas ao grupo.
Crise do Banco Master
As investigações ocorrem em meio à crise que culminou, em novembro do ano passado, na liquidação do Banco Master pelo Banco Central. A instituição já enfrentava risco elevado de insolvência, pressionada pelo alto custo de captação e pela oferta de produtos financeiros com juros muito acima da média do mercado, como CDBs com remuneração elevada.
Tentativas de venda da instituição, incluindo negociações com o Banco de Brasília (BRB), acabaram interrompidas após questionamentos de órgãos de controle e o avanço das investigações.
O que dizem as defesas
A defesa de Daniel Vorcaro afirmou que o empresário sempre colaborou com as autoridades e negou qualquer tentativa de obstrução das investigações. Os advogados disseram confiar que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade da conduta do cliente.
A defesa de Fabiano Zettel informou que ele se apresentou às autoridades e está à disposição da Justiça.
Os advogados de Luiz Phillipi Mourão declararam que aguardam acesso aos autos para avaliar medidas judiciais visando a revogação da prisão.
Já a defesa do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva afirmou que ainda não teve acesso integral ao processo, mas trabalha para garantir a ampla defesa do investigado.



