Por Marilei Schiavi
A juventude brasileira está sendo engolida, em silêncio, por uma epidemia moderna: o vício em apostas online. Alimentada por plataformas bilionárias, promovida por influenciadores e patrocinada por eventos esportivos e streamings, essa nova “droga digital” vem seduzindo adolescentes e até crianças com promessas de dinheiro fácil — e destruindo famílias no caminho.
A CPI das Bets, instaurada no Congresso Nacional para investigar a atuação das plataformas de apostas esportivas no Brasil, escancarou uma realidade que muitos fingem não ver: o vício em jogos de azar não é mais uma preocupação distante. É urgente. É atual. E está ao alcance de qualquer clique.
Na sessão desta semana, a fala do padre Patrick, conhecido nas redes sociais por sua abordagem jovem e acessível, viralizou. Ele fez o que muitos políticos e formadores de opinião deveriam ter feito há muito tempo: falou verdades incômodas. Denunciou a sedução do dinheiro fácil, o sofrimento das famílias e a completa ausência de regulação eficaz. Disse, com todas as letras, que o sistema está adoecido. E ele está certo.
O papel dos políticos
Cabe aos parlamentares mais do que apenas “instaurar CPIs”. Eles precisam legislar com coragem e responsabilidade. Não dá mais para adiar a regulação desse setor, nem se omitir diante do lobby milionário das casas de apostas. O que está em jogo é a saúde pública — mental, emocional e financeira — de uma geração inteira.
A CPI não pode terminar em pizza ou em palanque. Ela precisa resultar em propostas sérias de controle, fiscalização e responsabilização, especialmente no que diz respeito à publicidade e ao acesso de menores de idade às plataformas.
O papel dos influenciadores
Boa parte do sucesso das bets se deve à adesão de influenciadores digitais, que promovem essas plataformas sem qualquer critério ético. Pessoas com milhões de seguidores — muitos deles adolescentes — normalizam o ato de apostar como uma forma de “empreender”, “ganhar fácil” ou até como estilo de vida. Isso é irresponsável.
É preciso cobrar uma postura consciente de quem lucra com audiência. O poder de influência deve vir acompanhado de responsabilidade social. Quem incentiva o jogo precisa, no mínimo, alertar para os riscos.
O papel da imprensa
A imprensa tem o dever de informar, investigar e dar visibilidade aos impactos desse mercado obscuro. Não é só uma questão de dinheiro — é uma questão de saúde pública. Precisamos de mais reportagens, mais denúncias e mais espaço para as vítimas e especialistas.
Felizmente, a fala do padre Patrick despertou a atenção da mídia, mas não podemos deixar que esse debate esfrie. A pauta precisa continuar. E com profundidade.
O papel da sociedade
E nós, como sociedade, também temos um papel: o de cobrar, denunciar, proteger e educar. Conversar com nossos filhos sobre os riscos das apostas, questionar a publicidade nas redes, pressionar autoridades e influenciadores. O silêncio, neste caso, é cumplicidade.
A CPI das Bets é uma oportunidade histórica de enfrentar um problema que cresce no ritmo da tecnologia, mas que afeta profundamente vidas reais. Não basta assistir — é preciso agir.
Porque quando um padre precisa ir até o Congresso para dizer o óbvio, é sinal de que todos nós estamos falhando.
Faça sua parte. Questione, compartilhe, pressione. A juventude agradece.



