Adeus a Bira Presidente: o coração do Cacique de Ramos e do samba brasileiro

Por Marilei Schiavi

O samba perdeu um de seus pilares. Morreu na noite de sábado (14/06), no Rio de Janeiro, aos 88 anos, Ubirajara Félix do Nascimento, o Bira Presidente. Fundador do bloco Cacique de Ramos e do lendário grupo Fundo de Quintal, Bira era muito mais do que um percussionista e compositor: era um elo entre gerações, entre o samba tradicional e a modernidade, entre a cultura de terreiro e os palcos do Brasil.

Bira estava em tratamento contra um câncer de próstata e enfrentava também o avanço do Alzheimer. Mesmo afastado da cena musical nos últimos anos, seu nome permanecia como referência incontornável no universo do samba.

Do subúrbio ao legado eterno

Nascido no bairro de Ramos, na Zona Norte do Rio, no dia 23 de março de 1937, Bira cresceu cercado por música e espiritualidade. Filho de uma mãe de santo da Umbanda, a musicalidade dos rituais familiares se misturava ao som das rodas de choro e samba frequentadas por ícones como Pixinguinha e Donga. Aos sete anos, foi “batizado” na Estação Primeira de Mangueira, onde nasceu sua paixão pelo samba-enredo.

Mas seria no Cacique de Ramos, fundado por ele e um grupo de amigos e familiares em 1961, que Bira se tornaria lenda. A sede do bloco – apelidada de “Doce Refúgio” – se tornou o berço de um novo samba: mais informal, mais percussivo, mais próximo do povo.

O surgimento do Fundo de Quintal

Do Cacique, nasceria o grupo Fundo de Quintal, que revolucionaria a música brasileira ao incorporar instrumentos como o tantã, o repique de mão e o banjo ao samba. Bira era a alma do grupo. Seu carisma, seu humor e seu pandeiro marcavam presença nos palcos, nas entrevistas e nas memórias afetivas de milhares de fãs pelo Brasil.

O legado do Fundo de Quintal segue com nomes que hoje estão na MPB e no pagode contemporâneo, todos herdeiros de uma tradição musical que Bira ajudou a criar e preservar.

Símbolo de resistência cultural

Bira Presidente não era apenas músico. Era articulador, mestre de cerimônias, conselheiro e porta-voz da cultura periférica, negra e popular. O Cacique de Ramos, sob sua liderança, acolheu gerações de sambistas e se tornou patrimônio imaterial da cidade do Rio de Janeiro.

Sua ausência deixa uma lacuna irreparável, mas também fortalece a missão de continuar ecoando o samba como instrumento de identidade, resistência e celebração.

O Brasil agradece

Enquanto o Brasil se despede de Bira Presidente, os tambores do Cacique seguem tocando. Cada batuque é memória viva de um homem que fez do samba sua religião e da cultura, sua missão.

Bira não era apenas presidente. Era o coração de uma geração que jamais será esquecida.

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