Artigo by Marilei Schiavi
Mais que uma biografia, Homem com H, dirigido por Esmir Filho, é um retrato íntimo, poético e pulsante de um dos maiores símbolos da arte brasileira: Ney Matogrosso. Um artista que sempre viveu como quis, mesmo quando o mundo dizia que não podia. Com voz única, gestos libertos e presença cênica arrebatadora, Ney quebrou tabus, desafiou o moralismo e transformou a provocação em arte.
O documentário revela não apenas o intérprete ousado que enfrentou a ditadura e o preconceito, mas também o homem por trás da maquiagem, dos figurinos e das luzes. Ney se expõe com uma honestidade rara ao falar da difícil convivência com o pai militar, rígido e conservador. Crescer em uma casa onde ser diferente era motivo de repressão moldou profundamente sua sensibilidade e sua rebeldia. A reconciliação com esse pai, já na maturidade, é um dos momentos mais emocionantes da obra — um reencontro marcado por silêncio, perdão e compreensão tardia.

O filme também revisita os anos mais sombrios da epidemia de Aids, que vitimou tantos nomes da cultura brasileira. Entre eles, Cazuza — amigo e parceiro artístico de Ney. A morte de Cazuza, em 1990, foi um baque profundo para ele e para toda uma geração que via seus ídolos partirem sem acolhimento, vítimas de uma doença cercada de preconceito. Ney nunca escondeu essa dor. Sua fala sobre esse período é um ato de memória e resistência, uma forma de manter viva a lembrança dos que se foram e de lembrar o quanto viver livre sempre foi um ato político.
Com imagens de arquivo, performances antológicas e reflexões tocantes, Homem com H constrói um retrato fiel de Ney Matogrosso: um ser que não se encaixa, não se explica e não se cala. Em tempos em que discursos conservadores ganham espaço, o documentário é um grito de liberdade.
O tempo não para — e Ney também não. Aos 80 anos, ele continua sendo vanguarda. Um homem que canta com o corpo inteiro, que pensa com a alma aberta e que vive com a coragem dos que sabem quem são. Homem com H é, acima de tudo, sobre isso: sobre ser inteiro, mesmo quando o mundo quer que você se divida.
Para Ney Matogrosso,
Por ousar ser livre




