Bolsonaro adota tom contido e nega tentativa de golpe em interrogatório no STF

Em um momento considerado histórico para a política brasileira, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) prestou depoimento ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (10/06), e negou qualquer envolvimento em uma tentativa de golpe de Estado para se manter no poder após a derrota nas eleições de 2022.

O ex-chefe do Executivo surgiu com uma postura contida e estratégica, em contraste com o tom agressivo e combativo que vinha adotando em discursos públicos, especialmente ao se referir ao próprio Moraes — ministro que foi alvo frequente de suas críticas durante e após o período eleitoral.

O que mudou

A postura adotada por Bolsonaro no STF destoa fortemente de sua retórica anterior. Sem ataques, sem improvisos e comedidamente calmo, o ex-presidente negou ter autorizado, incentivado ou participado de qualquer plano golpista. A cautela no depoimento, segundo analistas políticos, demonstra uma clara tentativa de reduzir o risco de responsabilização criminal direta diante de provas e delações cada vez mais contundentes.

O peso do depoimento de Mauro Cid

A mudança de tom veio um dia após um depoimento explosivo do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro. Segundo ele, o ex-presidente não só teve acesso à minuta de um decreto de intervenção, como também fez alterações no texto, que previa medidas para anular o resultado eleitoral e manter o poder presidencial. Cid afirmou que Bolsonaro “enxugou” o conteúdo do documento, supostamente para dar aparência de legalidade à manobra.

Além disso, o militar confirmou que o plano previa a prisão de Moraes, algo que reforça a gravidade das acusações em curso no STF.

Interrogatório estratégico

O depoimento desta terça-feira integra a fase de interrogatórios dos réus no inquérito que investiga a tentativa de golpe, conduzida sob relatoria de Moraes. Os depoimentos estão sendo feitos em ordem alfabética, e Bolsonaro foi o sexto a ser ouvido.

Nos bastidores, fontes próximas ao Supremo relataram que Bolsonaro foi orientado por seus advogados a manter cautela máxima e evitar qualquer contradição que pudesse agravar sua situação jurídica.

O que está em jogo

A investigação no STF tem potencial para definir os rumos políticos do país nos próximos anos. Caso seja comprovado que houve de fato uma articulação golpista com a participação direta do ex-presidente, Bolsonaro pode ser declarado inelegível ou até mesmo condenado criminalmente por tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito — um dos crimes mais graves previstos na legislação brasileira.

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